Há cinqüenta anos a universidade pública brasileira tenta se equilibrar sobre o desenvolvimento de uma das contradições mais importantes de sua história: A reivindicação da autonomia na definição de seus valores e objetivos se choca com a submissão a critérios de eficácia e produtividade de origem empresarial ou de responsabilidade social.
Na década de 1970, o governo militar responde à essa contradição massacrando a liberdade de crítica e a autonomia universitária em prol de um projeto nacional que servia a muito poucos. Nesse momento a prioridade mesmo era veicular sua produção voltado aos interesses do mercado nacional e internacional, com a tentativa de inserção do Brasil no capitalismo associado-dependente. Era o período em que o neoliberalismo começava a se impor enquanto modelo de desenvolvimento econômico internacional. Esse processo se intensificaria e tomaria forma completa a partir dos anos 1990 com os governos tucanos.
Foi a partir da imposição deste modelo que surgiu a idéia de que os problemas da universidade pública eram irremediáveis e que para solucionar todas as crises era necessária sua abertura ao mercado.
Este projeto político-educacional que estava em curso, visava tirar a universidade da construção de um projeto de país e da produção de pensamento crítico e de longo prazo, tornando-a definitivamente vazia de preocupações humanistas e culturais. A educação não seria mais um direito e sim um mero produto. Estaria centrada agora no indivíduo e em pretensões individuais e não em interesses coletivos. E o pior golpe: estaria incapacitada para questionar a si própria.
Para contrapor este modelo, seria necessária a construção de um novo projeto de nação, com pretensões tão amplas quanto o neoliberal, porém ideologicamente contrário, prezando pela cooperação e respeito à soberania entre os países e não por uma relação colonialista, que sua produção fosse voltada aos interesses do seu próprio povo e a emancipação das classes populares através da educação.
Nesta primeira década, o século XXI traz fatos políticos e econômicos que podem apontar para uma possível nova etapa histórica para a universidade no país. As políticas implementadas a partir de 2005 somadas à crise do capitalismo global centrado no neoliberalismo que eclode em 2008, podem indicar a abertura de uma janela histórica, de retomada das lutas por uma Universidade Democrática e Popular!
Junto com as políticas de ações afirmativas, de reestruturação e expansão das universidades promovidas nos últimos cinco anos pelo governo federal, é necessário: desenvolver uma política de permanência estruturante, que reduza cada vez mais a estratificação social interna da universidade e garanta o pleno direito à vivência do ensino, da pesquisa e da extensão com igualdade de meios; um novo modelo de acesso não excludente como o vestibular, concretizando a universidade enquanto um direito social e universal, absorvendo os membro das classes populares historicamente excluídas; e o incentivo ao alcance da tão sonhada autonomia, com investimento financeiro, social e político do Estado. Essa mudança estruturante precisa estar inserida na construção de um projeto democrático e popular para o país e concatenada ao desenvolvimento de uma nova política internacional que tenha como objetivo a soberania dos povos.
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